quinta-feira, 23 de junho de 2016

CRÔNICA 'JUVENTUDE'



Juventude

Por Irys Brito Moratti

Talvez deva ser verdade o que os meus avós me dizem: “essa geração não aproveita a juventude’’. Eles me contavam histórias de suas brincadeiras e travessuras de quando eram crianças. Admito que nem sequer saberia dessas brincadeiras se eles não tivessem me contado.

Eram ‘cinco-Marias’; ‘ciranda’; ‘pula-carniça’; ‘passa anel’; ‘adoleta’; ‘alerta’; ‘boca de forno’; dentre outras, seja em casa ou na rua. Enquanto isso suas mães gritavam seus nomes, berrando, para voltarem para suas casas, pois estava anoitecendo ou prestes a chover...

Também diziam que, mesmo com seus 16 ou 18 anos, ainda brincavam de ‘casinha’ ou jogavam uma ‘pelada’ na rua. Hoje é impossível isto acontecer! Nossos brinquedos são a tecnologia, celular, computador, TV e às vezes (quase nunca) um livro, normalmente quando já está prestes a dormir...

Quando eles me contavam – pra ser sincera – sentia inveja. Pareciam muito mais felizes, com tanta adrenalina... Já eu e minha amigas ficamos trancadas no quarto, conversando via SMS ou aplicativos de mensagens, sobre coisas irrelevantes, só para passar o tempo.

Acho que não dá para reverter isso. Se eu for agora mesmo convidar algum amigo ou vizinho para ir brincar na rua de ‘esconde-esconde’ ou outro ‘pique’, eles não vão aceitar. Uns irão dizer que estão com sono ou preguiça, outros irão dizer que está se arrumando para sair com a (o) namorada (o) ou amigo, e outros dirão que a mãe não irá deixar por ser perigoso ou irão se sujar...

Apesar de não ter vivido aquele tempo, sinto muita saudade dele...  



Quem é Irys Moratti? Estudante. Aluna do ensino fundamental da Escola Mundo Moderno.

‘Herbert Vianna dizia que atrás de seus óculos batia um coração. No de Irys também, ainda mais num peito juvenil cheio de vida. Além de um coração, atrás dos óculos de Irys tem também uma mente muito criativa e muita massa cinzenta pulsante. Só alguém acima da média para transformar uma reles atividade escolar em um texto que, de tão interessante, comoveu este blogueiro que vos escreve.  Muito bem! Muito bom! Estamos no caminho certo...’


Sandro Bahiense, blogueiro, professor e fã dessa garotinha cheia de talento.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

A INCRÍVEL AVENTURA DO HOMEM TALVEZ

Quando uma grande bola de fogo aproximou-se de seu planeta, seus pais não pensaram duas vezes: o puseram numa capsula e o enviaram ao planeta mais rceptivo que encontraram no universo, a Terra.

Chegando neste planeta o bebê fora adotado por um belo casal. Assim como com outros heróis vindo de outros planetas Sandro também detinha um super poder: o da indefinição! Assim como 'shazam', 'para o alto, e avante!', ou 'pelos poderes de Greyskull', nosso herói também tinha o seu grito de guerra. Para qualquer situação, seja a mais banal ou a  mais grave, Sandro levantava seus olhos, enchia o pulmão de ar, abria sua boca e bradava: Talvez!

Nosso mini herói, porém, sobreviveu e adaptou-se bem a seu novo lar, apesar de não conseguir aprender a pronunciar as palavras 'sim' e 'não'. Isso lhe trouxe problemas desde sempre.

Quando criança, o estilo do bebê Sandrinho confundia:

Quer mamadeira neném?


Apesar destes percalços, contudo, conseguiu crescer, estudar e fazer amigos. Arranjou uma bela namorada. Noivaram. No dia do casamento, porém quase pôs tudo a perder:

A aceita na saúde e na doença, na tristeza e alegria, até que a morte os separe?


Apesar deste ''leve'' contratempo se casou. Mas seu casamento não decolava, pois o jovem não conseguia arrumar emprego:

São dois mil reais, mais vale transporte, ticket e plano de saúde. Aceita o emprego?


Certo dia seu super poder quase lhe tirou a vida. Passava por um lugar ermo, à noite, quando fora abordado por um meliante:

Perdeu! Passa o celular!

Por sorte escapou de mais esta enrascada. Quando já estava desiludido da vida, surgiu uma possibilidade de trabalho onde o seu super poder podia ser finalmente empregado para o bem:

Professor, posso ir ao banheiro?
Professor, já corrigiu as provas?
Professor, será que eu vou ficar reprovado?


Hoje o mundo é um lugar melhor graças à toda indefinição do Professor Sandro. Onde todo dia é dia de não responder nada a ninguém! 

FIM?

Huummm... Talvez...

* Baseado no argumento de Arthur Mota de Oliveira.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

O ÊXTASE DE UM LEGIONÁRIO

Eu tinha 14 anos quando a Legião Urbana veio ao estado pela última vez. Já fã, pedi a meu pai que me levasse ao show. Papai, fã de rock internacional, odiava, paradoxalmente, o rock nacional (complexo de Donald Trump?). Resultado? Não fui ao show. Uma mágoa que guardei comigo por mais de duas décadas. Mas o pra sempre, sempre acaba não é? Acabou. Num sábado frio quentoso de maio, num dia 14 qualquer e único. Terminou: Eu vi a Legião Urbana!



O êxtase de um legionário

Capital Inicial, Kid Abelha, Paralamas, Titãs, Jota... O número de show das melhores bandas do rock nacional a qual já tinha assistido era grande (e só aumentava). Este ano, contudo, eu, pep guadiolamente, tiraria um ano sabático. Admito, não por opção, mas por necessidade. Minha filhota Laura estreou no dia primeiro de janeiro deste ano (acho massa nascer nessa data) e, logo, com apenas quatro meses e uns quebrados de vida, fica impossível levá-la a qualquer lugar movimentado ou deixá-la com alguém. Até que...

Tem três coisas que odeio nesta vida: acordar cedo, camarão e Giuliano Manfredini! Este último, por uma providência divina, foi impeachmado dos direitos de decidir qualquer coisa em nome da Legião Urbana. Resultado? Fiquei com a pulga (e o cachorro) atrás da orelha: será que a Legião vem ao estado bem no meu período hibernoso? Sim, veio. E agora?

Ricardo e sua barba em homenagem ao craque Walace ex-Framengo

Que me perdoem os ateus, mas Deus operou na minha vida mais do que o doutor Rafael Favatto faz operações de ligaduras nas mulheres no período pré eleitoral. E uma dessas providências foi Ele por Elaine na minha vida. Um anjo de pele morena, boca e coxas gostosas e um grande coração! Pois Elaine num ato mais generoso do que comprar dois kites dos caras da Manassés de uma vez, me deixou ir ao show sozinho. Sozinho não, aliás. Em companhia do meu parceiro de toda hora Ricardo Salvalaio. Eu e Ricardo somos praticamente o Bebeto e o Romário do mundo das músicas e literaturas (eu sendo o Bebeto, fazendo o tipo mais de fiel escudeiro, claro).

Estava tão ansioso que nem quis o valiosíssimo troco de 5 centavos do pedágio da terceira ponte. Passei direto, tudo para chegar logo ao Álvares. O ginásio, aliás, adentrou nesse chato padrão Fifa de excelência.  Cadeiras nos lugares das indefectíveis arquibancadas de cimento. Tudo mais bonito, mas evidentemente mais frio.

Arquibancada padrão Fifa. Bonito, mas...

Chegando lá acompanhamos o fim da apresentação de uma banda capixaba que não sei o nome, que tocava o melhor do congo-pop do estado. Olhei Ricardo de canto de olho, afinal o meu copiloto de shows odeia a música de nossa terra (Renato Casanova NÃO curtiu isso). Não falei nada pra não estragar a noite e também porque faço a linha ''bom vencedor''.

O ginásio recebeu, dentre os shows que já fui lá, seu segundo maior público, só perdendo para a apresentação de Caetano Veloso. Ansiosos, os espectadores vaiaram homericamente os apresentadores do gazetal 'Em movimento'. Para eles foi bem constrangedor. Para mim foi muito engraçado - a gente se diverte com a dor alheia (momento Nazaré Tedesco).

Público chegando ao show. Aglomeração maior do que a fila do 519 as 7 da manhã

O público foi ao delírio quando a banda subiu ao palco. Achei que as arquibancadas iriam cair igual no jogo do São Paulo no momento em que os acordes de 'Será' se fizeram presentes. Nada aconteceu, ufa! O grupo tocou na íntegra o disco 'Legião Urbana' e vi algum desanimo em músicas menos conhecidas como 'Petróleo do futuro', 'O reggae' e ''A dança', menos deste que vos escreve. Ao pular e cantar efusivamente ao som de 'Baader Meinholf Blues', me senti como aquele gari que samba na Sapucaí, com todos parados olhando pra mim.

A última música do disco de trinta anos atrás era 'Por enquanto'. André Frateschi, sentindo a vibe, deixou a galera cantar sozinha a linda música. Ainda bem que estava escuro e ninguém percebeu os olhos marejados deste saudoso fã.

Depois da íntegra do disco, o show seria dos grandes sucessos. Estranhei positivamente a presença de algumas músicas lado b como '1965', 'Dezesseis' e 'Daniel na cova dos leões'. A presença destas músicas, somadas a outras nem tão conhecidas como 'Angra dos Reis' e 'Quase sem querer' mostrou bem a pluralidade do público, dividido entre fãs incontestes como eu, junto a fãs das ''músicas conhecidas''.  Este segundo grupo, aliás, aproveitava essas músicas para tirar fotos, selfies, selfies-fotos e selfies-services. Ver tantos celulares potentes, ostentosos, desnecessários e caros, me lembra que um dia eu tenho de trocar o meu tijolão por um, vá lá, tijolinho.

Frateschi mais feliz do que pinto no lixo. 

Dentre o grupo dos fãs incontestes, fui um dos poucos que achou legal o Wagner Moura nos vocais da esquisita apresentação que a banda fez para o especial da MTV. Exatamente pelo Capitão Nascimento ser fanático pela banda e ter se divertido muito no palco. Pois o André Frateschi se divertiu tanto quanto, com a diferença de ser milhões de vezes mais bem afinado. Sabendo de seu lugar, André deixava a Bonfá e principalmente, a Dado, a parte da interação com o público. Villa-Lobos, contudo, parece ter herdado a mesma eloquência de Jorge Vercilo ao falar. Confuso, viajante e pouco elucidativo. Demorei umas cinco ou seis falas do cara para deduzir que ele se mostrava contrário ao impedimento da Dilma Rousseff. Isso desencadeou os enjoados 'não vai ter golpe', confrontado com o também enjoado 'fora PT'. Por fim um 'Teatro dos vampiros' depois uniu a torcida novamente.

Torcida... Parecia a torcida do Framengo após um gol do Zico quando Frateschi anunciou que teríamos nove minutos de uma certa oração também chamada de 'Faroeste Caboclo'. Não vi reação no público igual em todos os shows que fui! A apresentação, duas horas e meia depois, terminou com 'Que país é este?' pergunta RETÓRICA que o público insiste em responder com a indelicada "é a porra do Brasil''. Cada vez que os espectadores gritam essas baixarias eu sempre imagino as cinzas do Renato voando de um lado para o outro, revoltado. Mas... No problem.     

Gol? Ah não, é só o anúncio de 'Faroeste caboclo'

Em suma, foi um showzão! Frateschi se divertiu. Bonfá e Dado se divertiram. Os novinhos se divertiram. Os velhinhos se divertiram... Foi uma festa! A Legião Urbana somos nós. E nós fizemos um showzaço!

domingo, 10 de janeiro de 2016

BOAS VINDAS: NASCE UM PAI. TEXTO ESCRITO

Elaine assistia, dia sim, outro também, o programa 'Boas Vindas' do canal a cabo GNT. A atração conta a estória de vários partos, normal ou cesariana, sob a perspectiva dos pais. Após a descoberta da gravidez, tal hábito se tornou ainda mais rotineiro. Decidi que, após o nascimento da nova integrante da família Góes-Bahiense, eu também faria o meu relato, escrito, claro, pois não fico tão bem na TV... Com vocês, boas vindas: nasce um pai.



Dia 30/12, 05:00 da manhã

O meu relato será uma espécie de diário de bordo/relato conselho. O intuito é informar e entreter não nessa ordem. Digo isso porque Elaine e eu discutíamos quase todo dia sobre os meandros da gravidez e do parto. Logo, eu estava craque no assunto. Sugiro a todos os papais que por ventura venham a ler esse relato façam o mesmo. Foi de grande valia.

Imagino a ansiedade de Elaine em esperar até as 09 da manhã para me contar que havia se "rompido o tampão", termo utilizado para explicar que o colo do útero começou a abrir e que o trabalho de parto começara.

Daí até o nascimento em si é um longo caminho. Longo mesmo. O que explica a minha decisão de... continuar dormindo. Pensei em poupar energia para o restante do dia onde, se esperava, as fases importantes começariam. Por fim eu estava certo apesar de parecer meio frio e desinteressado em um primeiro momento.

As contrações começaram levemente a tarde, período em que a doula de Elaine (doula é a profissional que acompanha a gravidez e o parto, com o intuito de amparar e aconselhar a gestante) chegou. Helena começou a contar o tempo das contrações e, vendo que elas estavam espaçadas demais, começou a induzi-las com chás e exercícios (em especial a mulher ficar sentada, quicando, em cima de uma grande bola).

As contrações aumentaram na madrugada, quando fomos ao hospital. Lá, contudo, o plantonista afirmou que o colo do útero pouco se abrira e que devíamos voltar depois. Fomos para casa. Elaine quicava enquanto eu cantava 'With or without you' do U2 (passava um especial da banda na Globo). Por fim, em dado momento, eu e a doula pegamos no sono, enquanto a futura mamãe permanecia no exercício.

Amanheceu e as contrações continuavam espaçadas. Daí ligamos para o médico que acompanhou toda a gravidez de Elaine. Ele sugeriu que fôssemos a tarde para uma nova avaliação. Assim foi.



Dia 31/12. 15:00 horas

O que é uma doula? Pergunta dos atendentes da madrugada e da tarde do hospital onde fomos. Fico impressionado com a falta de conhecimento/profissionalismo de tais. Helena foi impedida de entrar comigo e com Elaine para a avaliação. Eu e a futura mamãe fomos sozinhos.

Entramos e a médica mal nos olhou. Sentamos. A doutora, mesmo percebendo as contrações de Elaine, ficou mexendo no celular. Depois, acreditem, ligou para o irmão sugerindo que ele pedisse um desconto em um presente... E Elaine com contrações. Para quem nunca as teve é algo como cólicas fortes, extremamente incômodas. Menos para a doutora, pareceu-me. 

Quem me conhece sabe que não sou de muita paciência. Xinguei-a internamente e minha vontade era de ir embora naquela hora. Mas, era dia 31/12, a poucas horas do reveillón... Com certeza não estava chovendo médicos. Daí me contive.

Neste ínterim, o nosso médico estava ligando para ela. Quando viu suas chamadas ela retornou, afirmando que não havia nenhuma "Eliane" consultando. Quando desligou, contudo, após contarmos que a Eliane era a Elaine que estava sentada a mais de vinte minutos à sua frente, a médica simplesmente mudou o tom. Antes de mais nada vale informar: O nosso médico é chefe da obstetrícia do hospital, logo, "chefe" dela. 

Na mesma hora seu temperamento e a atenção para com a gente. Fez os exames. Elaine ainda estava com pouca dilatação. Mas a médica, depois, nos pôs a desesperar afirmando que o tempo de gestação de Elaine estava longo (41 semanas) e que ela estava "velha" para ter neném, logo era melhor adiantar o processo. 

Por sorte, e esclarecimento, estávamos bem informados acerca destas místicas médicas quanto a parto e não caímos na conversa fiada da doutora, mas admito, nos preocupamos. Com isso decidimos, então, que pagaríamos a disponibilidade de nosso médico, para que o parto fosse feito do jeito que queríamos. Foi um dinheiro grosso, admito, mas muito bem gasto, afinal eram duas vidas em jogo.

Por telefone nosso médico disse que o parto demoraria pelo menos mais 18 horas. Para isso sugeriu que Helena fosse para casa, curtir o reveillón em sua igreja, e que eu Elaine fizéssemos o mesmo. Passamos o meia noite vendo o insosso 'Show da Virada' da Globo ao som de "99% perfeito, mas 1% vagabundo", "é só você fazer assim... que eu volto..." e afins.



Dia 01/01/2016 as 03:00 da madrugada

A previsão do médico furou. Na madrugada as contrações vieram mais fortes e ritmadas. Aguentamos até a manhã. E as 10:30 horas Helena, eu e, claro, Elaine, voltamos ao hospital. Lá, martelo batido, o evento começara.

Havíamos decidido que todo o evento do parto seria natural, sem anestesias e indutores e que Laura nasceria, se possível, de parto normal. Contudo, como Elaine estava com pouca dilatação, um indutor foi aplicado, aumentando as contrações e, especialmente, as dores.

♪♪♪ Pra você guardei o amor... Que nunca soube dar... O amor que tive e vi sem me deixar... Sentir sem conseguir provar... Sem entregar... E repartir... ♪♪♪

Essa é a música tema do Boas Vindas. O programa, editado, traz os "melhores momentos" do parto, com o nenemzinho nascendo, depois de um trabalho de parto de uns 5 minutos no máximo dado o tempo de duração do programa, ao som de Nando Reis. Tudo é muito bonito e quase tranquilo. Na TV...

Porque na vida real... Diria que a trilha adequada seria heavy metal, um Sepultura ou Motorhead dos mais barulhentos. Elaine se transformou. Gritou com eu nunca havia ouvido, me apertou, mordeu... Mas resistiu bravamente por cinco horas.

Neste período sentou na famigerada bola, usou a barra, recusou o chocolate importado do médico por um Bis... Usou a piscina... Suplicou dezenas de vezes para que aprovasse a analgesia...

Eu me mantive firme, apesar da pena enorme que estava dela. Não fosse seu pedido anterior de ir até seu limite, eu já tinha pedido a anestesia a muito tempo. O médico e a doula, para minha irritação, quietos ficavam, me deixando com a "rabuda" de conter Elaine seus gritos, apertos e dores.

Dia 01/01/2016 as 20:24 horas

As sete da noite, contudo, optamos que ela tinha chegado a seu limite. Elaine tomou a anestesia. Uma hora depois o trabalho de parto recomeçou. E em 24 minutos nascia Laura, de parto normal, sem trilha de Nando Reis, sem edição de vídeo, mas muito mais emocionante do que qualquer outra coisa no mundo.

Sem dúvida o grande momento da minha vida!

Como praxe é o pai que acompanha os primeiros momentos do bebê. Eu que fui com Laura para os primeiros exames, pesagem e limpeza. Eu que escolhi a primeira roupinha. Em virtude da anestesia, Elaine ficou mais alguns minutos no centro cirúrgico, enquanto Laura, por estar saudabilíssima, veio para o quarto. Preciso dizer que rezei todas as orações que sabia para o neném não chorar? Por sorte ela ficou super calminha, de olhos abertos, olhando para mim, esperando a mamãe, de boa...

Dia 02/01/2016 as 00:00

"As três primeiras noites, são as piores". Foi o que ouvimos de todos sobre o temido choro do neném. Fato! Como o leite materno, com todas as suas propriedades naturais, só se forma no terceiro dia, o bebê, mesmo mamando constantemente, não se sasseia. Junta-se a isso uma pegada errada no seio da mamãe que acaba ferindo e pronto: Choro, choro e mais choro. A noite inteira. Por fim é melhor entregar pra Deus e torcer para passar logo.



Dia 04/01/2016 as 02:00

Elaine é alérgica a vários medicamentos, inclusive um que foi erroneamente receitado pelo médico. Quando ela tomou começou a inchar instantaneamente. Corremos na farmácia de madrugada atrás de anti alérgicos. A mamãe acabou debilitada, sonolenta. Logo nos primeiros dias do bebê.

Na mesma noite Laura golfou. Foi limpa. Depois voltou a dormir. Na hora de seu banho, contudo, manteve-se estranhamente quieta. Logo, foi ficando mole e não respondia a nossos chamados. Pânico. Corremos para o hospital. O quadro? Um simples engasgo. Que poderia ser resolvido facilmente com tapinhas nas costas, mas que pais de primeira viagem não sabiam. 

Por fim este que vos escreve passou o resto da sorte vigiando Laura e Elaine dormirem, vendo se ambas estavam respirando. Longa noite...

Hoje

Uma semana se passou. O neném ainda chora a noite, mas bem menos. Tiramos milhares de fotos, recebemos centenas de visitas... Não tivemos mais sustos... 

Cada um é cada um. Mas, olha, ser pai foi, disparado, a coisa mais sensacional da minha vida! Indico. 

Meu Nando Reis não tocou na hora do parto, mas toca toda hora no meu coração, pois foi pra Laura que "guardei o amor que antes nunca soube dar"....

 


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

OS MISTÉRIOS DE LAURA

Primeiro ela era um projeto. Depois realidade! Seu nome foi motivo de debate, sugestões e virou combustível para algumas estórias. Laura venceu o "embate". E agora o último estágio antes de seu nascimento: A escolha dos padrinhos. Esse texto os revelará. Afinal, quais são os mistérios de Laura?



Os Mistérios de Laura

E tudo começou por causa de uma bendita sombra de olho...

A frase foi dita por Elaine várias vezes após o ocorrido. Tudo começou no aniversário de 21 anos de Nathan. Toda a família foi até a Serra para a festança. Laura, então com 15 anos, claro, também estava presente. E ansiosa. Pela primeira vez decidiu que ela própria faria sua maquiagem, pois, até então, sua mãe que a fazia. Seu pai, então, distraído, não percebeu a tintura diferente que cobria a pele morena de sua filha e a festa transcorreu sem grandes problemas.

Na volta, contudo, Laura se distraiu e aproximou-se de seu pai para apertar seu nariz, gesto de carinho utilizado pelos dois desde o nascimento da garota. Ao vê-la aproximada, o rígido patriarca da família Góes-Bahiense percebeu a maquiagem, em especial a famigerada sombra de olho.

Sua regra era tão clara quanto desnecessária: Maquiagens discretas e feitas pela mãe! Especialmente nada que circulasse os olhos, pois a garota era alérgica a determinados produtos de beleza. Vendo que a filha havia quebrado tal determinação, Sandro lhe deu uma senhora bronca, de intensidade igual somente ao episódio de quando a garota quebrou a TV nova jogando futebol com Bento na sala.

Achando a bronca desmedida e desnecessária, Laura mostrou-se intensamente magoada, trancando-se em seu quarto aos prantos. 

No outro dia a garota demorou a se levantar. Não causou surpresa a princípio, afinal herdara o gosto por acordar tarde do pai. (A torcida pelo Fluminense, o gosto por filmes de terror e a paixão pela escrita e leitura também. De resto, diziam, era uma cópia da mãe, física e comportamentalmente). 

Contudo as horas se passaram e Elaine decidiu acordá-la. Assustou-se ao ver a cama arrumada. Em cima dela, um bilhete. A mãe o leu. Nele estava escrito um pequeno texto, de dez linhas, onde a menina justificava sua fuga. Laura havia sumido. E tudo por causa de uma bendita sombra de olho!

Ligações foram feitas. Para parentes... Amigas... Nada! 

Sandro vivia a analisar o bilhete. Havia ficado realmente feliz com a escrita da filha. Ao perceber tal sentimento do marido, Elaine tinha sua raiva duplicada. O marido, contudo, a dobrou, após "minuciosa" análise da carta, com uma dedução: Laura estava com algum de seus padrinhos e algum destes mentia, após receber os telefones dos compadres, a fim de protegê-la.

Para resolver a questão Sandro foi, pessoalmente, visitá-los. 

Foi difícil encontrar Ricardo em casa. Depois de ter começado a dar aulas de Literatura na UFES, Salvalaio havia se tornado "parte do prédio do colegiado" como se tivesse sido fundido à localidade. Como não o encontrara, Sandro foi até a universidade. Seu compadre estava em sala de aula. Sandro a adentrou.

Moleque, ficou fazendo gestos e caretas a fim de desconcentrar o amigo. A aula, sobre poesia pós moderna, tinha como personagem principal, Arnaldo Antunes. Sandro, provocativo, comentou que Antunes foi o "terceiro melhor de sua geração", atrás de Renato Russo e Cazuza. Um dos alunos pareceu concordar, deixando Ricardo nervoso. Isso o fez gaguejar. Todos riram. Ao fim da aula o requisitado professor seguia cercado pelos alunos. A demora irritou Sandro. Quando finalmente se desvencilhou dos estudantes, os compadres se puseram a conversar.

Ricardo realmente não sabia de Laura. Contudo confessou que as supostas aulas particulares  de inglês que ele estava dando para a menina eram só um pretexto. Na verdade ela aproveitava este tempo para nutrir um flerte com Rafael, um menino skatista que fazia poesias e compunha músicas em seu violão. Salvalaio justificou participar de tal ação por realmente acreditar que Rafael se tornaria um artista famoso e que Laura era "sua musa". Cinco anos depois a banda de Rafael chegou ao primeiro lugar na Parada Lunar com a música... Laura!

P da vida após a revelação de Ricardo e a estarrecedora notícia de que sua filha já havia começado sua vida amorosa,  Sandro foi a procura de Wagner, o outro padrinho de sua primogênita. Ele tinha uma piscina na cobertura que morava e Laura era presença certa em sua casa. Vinha dele grande parte do acervo de filmes de terror da garota e o projeto "um livro por mês", iniciado pelo padrinho desde que a menina começara a ler, o que já havia lhe rendido uma estante cheia e uma cachola proporcionalmente também cheia de ideias que iam de romance de vampiros até filosofia e psicologia (os estudos de Vygostky em especial).

Sandro chegou ao local. Suado, dado o calor excessivo, o homem lamentou não ter trago roupas de banho para cair na convidativa piscina. Wagner, por sua vez, tomava um vinho chileno sentado a uma poltrona que, de tão fofa, parecia o absorver. Era uma terça-feira a tarde e Sandro realmente não sabia como o compadre havia conseguido juntar tanto dinheiro a ponto de poder se dar ao luxo de trabalhar tão pouco.

Os dois conversaram, sentados, à beira da piscina, ouvindo musica caribenha, hábito contraído por Wagner após viagem à Cuba Americana, novo país criado após a adoção da antiga Cuba pelos Estados Unidos em 2029. 

Após ser pressionado, o compadre disse não saber nada de Laura naquele momento, contudo teve de admitir que havia, em conluio com a afilhada, escondido algumas coisas dos pais da garota. Laura e Wagner estavam planejando a mudança da jovem para Massachusetts em 2032 para estudar na Harvard University, centro de excelência nos estudos da psicologia no mundo. O padrinho tinha uns "conhecidos" que a ajudariam a conseguir a difícil bolsa. Sabendo da posição de Sandro quanto aos estudos no exterior, tal definição havia ficado em segredo até então.

Irritado e decepcionado, Sandro voltou para casa com mais perguntas do que respostas. Sua filha tinha mais mistérios do que imaginara. Após conversar com Elaine, decidiu-se, por fim, que a mulher era quem iria procurar a filha agora, afinal o papai era péssimo investigador.

Elaine teve de aguardar até o meio dia para poder ir até o apartamento de Mônica. Após finalmente ter saído dos famigerados trabalhos por escala, Mônica se auto instituiu a regra de só acordar bem tarde. 

A madrinha de Laura havia comprado um ap à beira mar e era figurinha carimbada nos melhores quiosques do local. O prato "torresminho à lá Diniz" fora batizado em sua homenagem. A vinda da família Góes-Bahiense à região era costumeira. Quinzenalmente. Contudo tais visitas haviam sido adiadas momentaneamente, pois Mônica tinha ido à França pela terceira vez, trazendo suspeitas de que havia algo mais do que somente a beleza do país europeu a lhe atrair por lá. 

Elaine chegou ao apartamento e as comadres tomaram a conversar. A residência de Mônica era grande, com um varandão extenso. As mulheres se sentaram por lá, tomando drinques refrescantes à base de frutas. Elaine riu dos detalhes do drinque e a comadre a retrucou com palavras não muito doces.

Após os pormenores, Mônica acabou interpelada sobre Laura. Jurou não saber de nada sobre o sumiço repentino. Contudo confessou que estava guardando um segredo junto à afilhada. Por saber da possível viagem de Laura para os Estados Unidos, Mônica decidiu patrocinar a afilhada com generosos depósitos mensais. Ela ainda ajudava a afilhada com logística sobre o local e com as aulas de inglês que o amigo Salvalaio não estava dando para a garota. Confessara que seria a porta voz da afilhada quando esta fosse contar da viagem aos pais. Pedido específico de Laura, afinal a madrinha "era a melhor para desembolar os nossos rolos". 

Elaine e Sandro ficaram irritados ao perceberem que Ricardo, Wagner e Mônica compactuavam com os mistérios de Laura às suas costas. O alívio: A outra madrinha, Sayonara, não estava envolvida em nenhuma daquelas tramoias. Logo, deduziu-se que Laura só poderia estar com ela.

Isso causou grande preocupação em seus pais, afinal Sayo não morava no estado há muito tempo. Apelaram às videos chamadas. Desde a nova tecnologia da abertura imediata de vídeos chamadas, a comadre não tinha mais como não atender o teleportátil.

A mulher estava em local amplo, parecendo ser um grande campo. Desde sua saída de Vitória, Sayo já havia enveredado em várias empreitadas. Dona de pensão na praia, fazendeira, vídeo logger, conselheira espiritual e professora de várias matérias e assuntos. Contudo foi como escritora que se deu muito bem. Seu livro "Ame amar" atingiu marca impressionante: Foi número em vendas por três anos seguidos. Traduzido para várias línguas. Ela ficou rica instantaneamente. Contudo sua essência não mudou. "Ame amar 2", por exemplo, estava há a quatro anos para ser escrito, caso a autora não enrolasse tanto.

O local onde ela estava era o Caribe. "Ame amar" viraria filme com Chloè Moretz e Zack Efron como protagonistas. Sayo afirmou não saber de Laura, contudo prometeu cumprir a promessa a afilhada: Um vídeo de Zack Efron dizendo que a amava.

Sandro, para provocá-la, contou dos outros três padrinhos, de como sabiam dos segredos de Laura e de  como, em conjunto, tramavam o futuro da garota. Sayo ouviu a tudo e riu com ar de superioridade. Isso deixou os pais da garota confusos. Ela explicou:

_ Eu não sei só disso. Eu sei de tudo! Minha maior contribuição para a formação da minha afilhada é ouvi-la. Fui eu a primeira a saber que ela queria abandonar o balé, fui eu a primeira a saber que ela tirou, propositalmente, uma nota ruim no IFES para não mudar de escola, fui eu a primeira a saber que ela roubou um beijo do César com apenas 11 anos, fui eu a primeira a saber que ela queria estudar psicologia, que queria estudar fora, que estava pensado em votar no Neymar para presidente... Fui eu a primeira a saber que ela se apaixonou pelo Rafael, depois pelo professor de Filosofia da escola, depois pelo Zac Efron ... Riu. 

_ E vocês acham que ela é uma boa menina não é? Ajuizada não é? Então. Graças a meus conselhos. Riu de novo com ar ainda maior de superioridade.

Por último deu um conselho:

_ A maior virtude da minha afilhada, além de ser linda como a madrinha, é ouvir a todas as pessoas inteligentes e sensíveis que a cerca. Não foi só aos padrinhos que ela pode ter recorrido. Aposto que vocês só ligaram para os amigos da idade dela...

Elaine e Sandro seguiram o conselho de Sayo. Ampliaram o "grupo de investigação". Logo, pipocaram informações da garota. Primeiro, na mesma noite, ela foi à UVV procurar a Tia Meyri. Meyrieli dava aula de Ciências Sociais naquela faculdade. Após uma "conversa filosófica" decidiu-se que a garota devia voltar. Ela, contudo, não seguiu o conselho  da tia. 

Decidiu procurar a Tia Deliane. Deliane havido construído um grande centro escolar, que logo se espalhou por toda a região metropolitana. Laura era uma de suas alunas. Tia Deliane, contudo, havia largado as salas de aula há tempos, ficando somente com a parte administrativa. Não antes de se gabar: Em 2028 havia batido um recorde nacional. Tinha dado uma aula de Literatura de Pré Enem no Estádio Kléber Andrade para incríveis 623 alunos.

Laura ao visitá-la, porém, mentiu para ela. Disse que somente estava com saudades e decidiu vê-la. Roubou uns volumes de Freud, Bakhtin e Chomsky e partiu rumo a Vitória.

Quando ela soube que o seu professor de Libras (a matéria se tornou obrigatória no currículo escolar em 2027) era o mesmo Leonardo que era amigo de seus pais desde os anos 2000, criou-se, entre ambos, uma grande amizade. Os debates pró e contra Deus mobilizavam a escola. Apesar de jovem, a garota se saia bem em debates e vira e mexe o botava em apuros. Laura decidiu procurá-lo. Lá, passou horas conversando com Miguel. Mig havia voltado da China (nova potência número um do mundo) há poucos, e aproveitara para lhe contar tudo sobre intercâmbios. Os dois riram lembrando-se do presente que Laura havia dado no aniversário de 45 anos do professor-amigo: Um papagaio chamado Jesus. Mais: Laura havia ensinado a ave a dizer "Jesus te ama", só para provocar o rival de debates. Tio Léo chegou e repreendeu Mig e Laura após descobrir que a garota havia fugido. A pôs a ir para casa. 

Antes de ir embora, porém, a garota se lembrou de algo que havia ouvido de Tia Kelly. Foi a amiga da mãe que havia lhe dado o "tutorial" de maquiagem do dia que trouxe tanta confusão. Ao se ver muito maquiada, a garota pensou em desistir de usar tais incrementos. Mas a tia, animada com o resultado, prometeu que seguraria qualquer onda caso ela precisasse.  Assim aconteceu. A garota chegou ao apartamento de Kelly e, após lembrá-la de sua promessa, por lá ficou. 

Era sábado a noite quando a campainha do ap de Kelly tocou. Era Sandro. Chovia e trovejava e Laura tinha muito medo dos barulhos, desde criancinha. Quando viu o pai desejou abraçá-lo forte, mas resistiu. Ele a chamou para conversar. Os dois saíram. A chuva cessou e os dois decidiram ir à praia. Com o passar do tempo e o maior número de compromissos e obrigações de Laura, tal hábito, tão apreciado pelos dois, diminuíra drasticamente. 

Sentaram-se na areia ainda úmida. Riram simultaneamente ao perceber que teriam a roupa molhada. Após esta reação, contudo, silenciaram-se. Minutos se passaram. Laura herdara da mãe a característica de fazer piadas em momentos constrangedores:

_ Tá vendo aquelas estrelas saindo ali? É a Ursa Maior.
_ Ursa Maior? Como você sabe disso?
_ Eu não sei. Só queria dizer isso um dia. Acho o nome Ursa Maior tão engraçado.

Mais silêncio. Sandro o quebra:

_ E aí, como ficamos?
_ Sinto muito pai. Fugir foi coisa de criança. Mamãe deve ter ficado tão preocupada...
_ Ficou. E eu também, claro.
_ Eu sei.
_ Acho que também lhe devo desculpas. Fui exagerado.

Sandro suspira. Parece saudoso. De repente sente os olhos marejarem.

_ Você é tudo para nós, Laura. Você foi o milagre que desacreditávamos. O maior presente do mundo. O presente sem tempo de validade. Me lembro de cada detalhe da sua vida. Seu primeiro banho, dado por mim, e em como eu te segurei pelo bumbum. O primeiro coco que eu tive que limpar... As horas de choro do primeiro dentinho. A palavra palavra. (Maggie né? interrompe Laura). Foi.

_ Os primeiros passinhos e o pânico meu e de sua mãe de você cair ou bater a cabeça na quina do rack. A primeira leitura. A primeira vez que escreveu seu nome. O uniforme do maternal. Do balé. A primeira ida ao Kléber Andrade. Os jogos de bola com a Anna e o Nathan no quintal da vovó. As notas dez. Os elogios dos parentes e conhecidos... Eu te amo, Laura!

Sandro chora. Tenta, em vão, secar as lágrimas na manga da camisa. Desde a chegada de Laura tem se tornado ainda mais emotivo. A filha o abraça forte. O pai se recorda:

_ Temos que ver a questão destes teus mistérios, mocinha!?!
_ Ixi.

Volta a chover. Os dois correm rapidamente para o carro. Chegam em casa. Elaine abraça a filha muito forte. Querendo apenas curtir o momento, a mãe relembra: E tudo por causa de uma sombra de olho... Todos riem. Laura vai dormir. Seus mistérios foram revelados. Mas não todos... 

domingo, 9 de agosto de 2015

CHEGOU A HORA! ELA SE CHAMA...

Liz, Ana Laura, Milena, Claire e Helena. Muitas foram as possibilidades e tamanha foram as dúvidas. Como se chamaria a futura herdeira da família Góes Bahiense? Enfim a espera acabou. Ela se chamará...


A alegria que um dia hei de chegar

Acordaram de um sono confuso, de uma noite mal dormida. Ambos moídos, como se tivessem tomado pancadas em todo o corpo. O gosto, na boca, lembrava de grandes ressacas. A cabeça latejava. Os olhos, inchados, pareciam querer pular pra fora.

Pouco se falou entre eles naquele dia. O silêncio era perturbador e a então certeza de que o mal venceria o sonho era realmente frustante. Uma nuvem pairava sobre aquela casa. O munho havia acabado antes mesmo de começar.

Muitos dizem que o tempo cura tudo. O tempo não cura tudo! Há uma adaptação, talvez um acomodamento. Pessoas se acostumam a sofrer. Acostumam em guardar suas tristezas só consigo, bem escondido, às vezes escondido da gente mesmo.

Tentou-se de novo. Sofreu-se de novo. Desistiu-se. 

Sacudiu-se a poeira, mas a volta por cima foi só dita e não concretizada. Buscou-se paliativos que depois viraram realidade. Reestruturaram-se. A partir de então pairava a dúvida: Tentar de novo? Não, era a resposta que vencia. O medo vencia. E esperança, naquele momento, era só uma utopia, ou talvez um nome próprio somente. Como ela seria a última a morrer se sequer havia nascido?

Não buscamos a aventura. A aventura nos buscou. O ceticismo de um foi derrotado pela positividade da outra. Agora daria certo. Deu certo!

Não à toa que os corações são símbolos do amor. Ao ouvi-lo pela primeira vez um mundo novo foi criado. Sonhos nasceram. Vidas modificadas e um futuro se abriu em meio a nuvens carregadas de incerteza.


À medida que o tempo passou descobrimos um amor que não tínhamos até então. Ganhamos presentes e um presente. E um gênero: Papais ela é uma menina!

Vários nomes foram especulados. Muitos sugeridos. Papai e mamãe não chegavam a uma conclusão. Estórias foram criadas. Vidas imaginadas. Semanas se passaram. Chegou a véspera do dia dos pais.

Ela o chamou no quarto. Ele foi correndo. Preocupou-se com a saúde dela. Nada disso. Um pacote estava em suas mãos. Azul. Dois corações em sua frente. E um rosto sapeca presumia uma traquinagem. O futuro papai havia sido enganado. 

Abriu o pacote. Emocionou-se com a roupinha que retransmitia seu desejo: "eu amo o papai". No fundo um livro do qual o pai falara durante semanas. Dentro uma dedicatória, escrita pela mãe, mas incentivada pela filha.


Nela, belas palavras. Algumas encorajadoras, outras incentivatórias. A certeza da constituição de uma família, de um sonho realizado e de que, por mais tardia que seja, as alegrias haverão de chegar. No fim a assinatura da mamãe, do bichinho e dela:

Laura Góes Bahiense. 

terça-feira, 4 de agosto de 2015

AS VÁRIAS PERSONAS QUE A MINHA FILHA PODE SER - ÚLTIMO EPISÓDIO "HELENA"

Minha esposa está grávida. Virá aí uma menininha. Apesar de já estar com 20 semanas, ainda não temos o nome da mais nova gatinha do pedaço em mente. Várias foram as sugestões. Vou aproveitar algumas delas e criar estórias acerca do que penso que serão suas personas conforme o nome escolhido. Último episódio: "Helena".

"Sempre vi as Helenas como mulheres fortes, marcantes, especiais, singulares..."


Uma odisseia Helênica

Andava de um lado para o outro. A meia calça incomodava e, parecia, lhe dava uma alergia danada. Começou a coçar as pernas e logo foi repreendida pela mãe que, por sua vez, desconjurava Sandro por ter lhe passado "essas alergias a tudo".

É claro que o nervosismo também colaborava. Era a primeira vez que seria dama de honra. Além da pompa da cerimônia, era do casamento da prima querida a qual estava participando tão decisivamente. Não podia estragar o casamento da Isa, pensava Helena, exagerada e megalomaníaca que só.

O vestido, cor de pérola, fora feito sob medida e, por capricho do pai, fora comprado para ficar eternamente como lembrança. Em seu detalhe, pedras brilhosas que se espalhavam do pescoço até a borda. Listras em semi tom dividiam a parte da frente. Atrás, um conjunto de doze botões e um singelo laço cor de rosa faziam o modelo.

Toda vestimenta casava belamente com sua modelo. Helena era morena, quase mulata. Corpo esguio que sempre salientava a cabeça em pé. Rosto redondo, olhos grandes, negros. Boca carnuda que se abria toda quando sorria. Uma pequena falha nos dentes inferiores da frente, mas que, diziam, lhe dava um charme. Personalidade dócil, obediente e tranquila. Tinha facilidade ímpar em fazer amigos. Amava e era amada intensamente e, naquele verão de 2022, teria seu evento social mais importante: O casamento da prima Isabella.

Ela não compreendia a desigualdade de temperamentos. Enquanto ela estava quase paralisada, pelo nervoso e para não suar, seu partner, César, corria de um lado para o outro, dando verdadeira canseira na mamãe Roberta. 

A rigor, ela estava era com uma pequena inveja. Enquanto César estava à vontade, ela era cutucada a cada 5 minutos. Primeiro vó Nena veio e ajeitou seu cabelo. Depois vó Inácia veio e ajeitou seu vestido. Tia Tânia veio e ajeitou cabelo e vestido de uma vez. Carol, prima que ela insistia em chamar de tia, veio e tirou quinhentas fotos. Depois veio a mamãe e a ajeitou por completo. O papai... Bem o papai só olhava, de longe, com uma cara de bobo choroso.

Quando a música da cerimônia tocou seu coração acelerou. Vendo seu nervoso a amiga Natália a amparou e sussurrou em seu ouvido que daria tudo certo, pois ela, Nat, já havia feito aquilo "um milhão de vezes e sempre dava certo". 

Natália estava correta. Tudo deu certo mesmo.

Em outra ocasião, todos se espantaram quando ela foi a primeira a saber que Tia Tânia se casaria. Isso se deu, pois a tia afirmava ter uma ligação que "só as duas podiam explicar" e, por isso, nada mais justo do que a pequena fosse a primeira a receber as boas notícias.

Isso se dava porque, desde sempre, Helena se apaixonou pela tia e vice versa. Fosse pela vontade da pequena, elas se veriam todos os dias e, quando aprendeu a andar, o caminho até a janela da tia era obrigatório. Não por coincidência a primeira palavra da menina foi "ãtã", abreviação mais que óbvia de Tia Tânia. Desde então as duas faziam tudo juntas. Iam ao parque, praia, shopping... A tia fazia maquiagem escondida nela e as duas brincavam de desfile de moda na sala para alegria da vovó.

Após a notícia, a preocupação de Helena era de ter de passar por todo o processo de dama de honra de novo. A tia a acalmou. As festanças seriam menos elaboradas. 

Quando descobriu que a primeira filha de Caio seria menina, Helena fez uma grande festa, afinal tinha dois irmãos e não podia passar seus "conhecimentos de menina" para ninguém. Helena ficou dividida, pois no dia da festa de casamento da tia, a esposa de Caio entrou em trabalho de parto. Sabia que a maternidade não era "lugar para criança" então teve de se conformar em ficar em casa. Dias depois, mesmo sob grandes protestos da Vó Inácia, ultra zelosa, segurou a pequena Amandinha no colo, prometendo, baixinho, lhe dar todas as dicas para ser a nova queridinha da família Góes. 

Dois anos depois preocupou-se com a notícia de que a prima Anna também iria se casar. Anna e Helena eram mais que primas, eram irmãs. Desde pequena a prima a acompanhava, ajudando sua mãe em sua criação. Anna levava Helena para passear, lhe ensinava a ler, a desenhar e a jogar futebol. A prima foi presença vip imposta por ela em seu primeiro dia no ballet. Contudo agora, tempos depois, Helena estava com 11 anos. Velha demais para ser dama de honra, mas nova demais para ser madrinha.

Trancou-se no quarto e chorou por horas. Não abriu a porta nem para a mãe, nem para o pai. A exceção foi dada à Maggie, sua companhia de longa data. Maggie mordia de leve seus dedinhos, único jeito carinhoso que conhecia para acalentar seus donos. 

A solução foi dada dias depois. Helena entregaria as alianças, dançando. Pedido da prima, logo ela não podia negar. Todos ficaram em polvorosa na casa dos Góes Bahiense. Mamãe Elaine teve a ideia. A amiga Amanda daria aulas particulares para a pequena. Nos dias dos ensaios era uma festa só. Não só Amanda vinha, mas Roberta (e os filhotes), Meiri (e os filhotes), Cintia e Marcela vinham.

Era um fuzuê. César, Benício, Júnior, João (filhos da Meiri) e Bento corriam pra lá e pra cá, aos gritos, com Maggie. O pequeno Artur, por sua vez, chorava por não poder participar da farra e Sandro, que ficava a cabo de controlar a molecada, mais participava das brincadeiras do que impunha limites. Mesmo nesse cenário maluco a pré adolescente Helena se mostrava pronta para o grande dia. Seus pais se emocionaram ao vê-la dançando ao lembrarem de Isabella fazendo o mesmo em seu casamento. A menina, por sua vez, satisfez-se com seu desempenho. 

Aquele foi start para Helena decidir ingressar na igreja da avó. Começou a dançar no grupo coreógrafo e convertera-se evangélica em 2031 sendo a última batiza pelo Pastor Renato. Na igreja estreitou a amizade com César e Heitor. César era tranquilão, desencanado e muito engraçado. Heitor, por sua vez, era sério, disciplinado e seguro. Suas personalidade se contrastavam e, ao mesmo tempo, se completavam. Laís, filha mais velha de Rair e Carolinne, e dois anos mais nova que Helena, completava o quarteto inseparável. 

Num aniversário de Vó Inácia, Tia Vivi decide fazer uma grande comemoração, com direito a alugar um cerimonial e tudo. Toda família e amigos são chamados. César e Heitor, claro, estarão presentes. Benício também vem. Com jeito falante e extrovertido ele logo compensa os anos de separação achegando-se aos outros. Cria-se um clima de paquera no ar. Laís provoca Helena, agora uma bela adolescente, dizendo que a prima é o centro das atenções. A menina a retruca sem muita convicção. 

O primo Estevão é o DJ da festa e surpreende ao colocar a música 'Pétala' de Djavan, favorita de Helena, para tocar, dizendo que havia sido dedicada por um admirador secreto. Mesmo envergonhada ela gosta da surpresa. Depois foge do pai, imaginando o esporro que o velho lhe daria. 

O pai a encontra, mas ela é salva pelo gongo, pois era a hora da cerimônia da família Góes. 

Todos entram no salão:

Primeiro entra Vó Inácia

Depois Luiz Henrique, Suzelma, Carol, Rair, e seus filhos, Laís, Júnior e Luiz Henrique Neto.

Depois entra Tico, Janete, Vinícius, Alexandra e seus filhos, Estevão, Eduardo, Enrico e Emilly.

Depois entra Tânia, João Paulo e a filha de João Paulo, Camilla.

Depois entra Vivi, Júnior, Nathan e a namorada de Nathan, Elisa.

Depois entra Émerson, Laudi, Caio, sua esposa, e seus três filhos, Amanda, André e Josué. Depois Isabella (grávida na ocasião) e seu marido. Depois Anna e seu marido.

E por último Elaine, Sandro, e seus filhos, Helena, Bento e Artur.

Todos ficam ao redor da matriarca da família numa cena linda, guardada pra sempre na memória de Helena.

Ao término da cerimônia começou a festa. Laís traz consigo um bilhete do tal admirador secreto para Helena. Ela o abre. Lá está escrito que o admirador a esperará atrás do bebedouro do cerimonial em cinco minutos. Ela passa o olho nos possíveis suspeitos. Nem César, nem Heitor e nem Benício parecem levantar suspeitas. Os cinco minutos se vão. Depois mais cinco. E depois mais cinco. Helena, covarde, não vai.

Anos se passam. Outros chegam. Alguns se vão. Helena se forma na universidade. Dá aulas de Filosofia em escolas públicas. Se casa. Tem filhos...

Num dia arrumando a bagunça vê os álbuns de foto. Lá estão grandes partes de suas lembranças: Os pais jovens se beijando na escadaria do shopping. Ela saindo da maternidade. Tia Tânia antes e depois da bariátrica. O Nathan, pequeno, ao lado da Frida. Vó Nena com a bisa. Vó Inácia com o buá dos desfiles de moda com Tia Tânia. Bento. Depois Artur. Maggie puxando a fralda do Bento e depois puxando a fralda do Artur. Seu primeiro dia no ballet. O casamento da Isa. O casamento da Ana. A primeira prima. O dia do título no time de futsal.  A viagem ao Maracanã com o pai. O encontro da igreja com César, Heitor e Laís. O primeiro beijo em seu então namorado. Seu casamento. Seus filhos...

Quanta coisa, ela pensou. E imaginar que até então eu era só um desejo, bem pequeninho, no coração dos meus pais.

Agora eu estou aqui. Até onde eu vou?